Onde o Sinal Cai Mesmo na Costa Vicentina, de Carrinha

A Costa Vicentina é a única parte de Portugal continental onde a internet numa carrinha falha mesmo, e falha com um padrão previsível: bem nas vilas, nada nas estradas entre elas. Se souber onde estão as falhas, não lhe custam nada. Se não souber, vai encontrá-las exatamente no pior momento, que costuma ser no início de um trilho sem mapa descarregado.
Este é o detalhe que deixámos de fora do guia de WiFi para autocaravanas e campervans, porque só interessa a quem vai mesmo percorrer esta costa.
O padrão, não o mapa
Não vamos publicar um mapa de cobertura com manchas verdes e vermelhas, porque esses mapas estão sempre um pouco errados e desatualizam-se em silêncio. O que se mantém verdadeiro é o padrão.
As vilas estão bem. Aljezur, Odeceixe, Carrapateira, Vila do Bispo e Sagres têm todas 4G utilizável na parte urbanizada. Dá para atender uma chamada, carregar fotografias, tratar do banco.
As estradas entre elas não. A N120 e a N268 correm por dentro, longe das falésias, por colinas baixas e vales de ribeira. O sinal vai e vem à escala de poucos quilómetros. Raramente é uma falha longa; são muitas falhas curtas, o que é pior para tudo o que seja streaming e irrelevante para tudo o que esteja em cache.
Os acessos às praias são a falha a sério. Quase todas as boas praias aqui ficam no fim de um caminho sem saída que desce do planalto. Praia da Amoreira, Monte Clérigo, Arrifana, Bordeira, Amado, Castelejo. O parque lá em baixo tem muitas vezes o pior sinal de quilómetros em redor, porque acabou de pôr uma falésia entre si e tudo o resto.
Porquê aqui em concreto
O Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina cobre uma faixa longa e estreita deste litoral, e construir dentro de um parque natural é restrito. Isso inclui antenas. A cobertura que apanha vem em boa parte do interior, a chegar por cima.
Depois o terreno faz o resto. Isto não é campo aberto como a planície alentejana, onde uma antena cobre muito. É um planalto cortado por vales fundos, e passa muito tempo abaixo da linha da falésia ou dentro de um vale. Ambas as situações põem rocha entre si e o emissor.
O Algarve a sul não tem nenhuma destas condicionantes, e é por isso que a situação da ligação no Algarve se lê de forma tão diferente desta, estando a uma hora de distância.
Três soluções que não custam nada
Descarregue antes de sair da vila. Mapas offline de todo o troço Odemira-Sagres, não apenas da etapa de hoje. Faça-o com um café em Aljezur enquanto tem quatro barras, não no topo do caminho que desce para a Arrifana. Só este hábito elimina a maior parte do problema.
Mude o router de sítio, não a carrinha. Se tem um WiFi portátil, ponha-o no tablier, numa prateleira junto à janela, ou pendurado perto da claraboia. Uma carrinha é uma pequena caixa de metal, e a diferença entre um router numa gaveta debaixo de uma cama com estrutura metálica e o mesmo router no tablier é, com frequência, a diferença entre nada e uma ligação utilizável. Experimente isso antes de concluir que o parque não tem cobertura.
Faça as coisas ligadas na vila. Não é uma solução técnica, é de planeamento, e é a que os vanlifers experientes usam de facto. Chamadas, uploads, tratar de assuntos e planear a rota acontecem onde há sinal. O estacionamento na falésia é para a parte da viagem que não precisa de internet, que é a maior parte dela.
O que alugaríamos mesmo para esta costa
Honestamente, depende de quem vai na carrinha.
Uma pessoa, duas semanas, só telemóvel: compre um eSIM ilimitado. É mais barato, não há nada para devolver, e por aqui vai encontrar exatamente o mesmo sinal que um hotspot encontraria.
Duas ou mais pessoas, um portátil que tem de trabalhar, ou uma estadia longa: alugue o WiFi portátil. Aguenta 6 a 8 horas com bateria própria e carrega enquanto está a ser usado, por isso ligado à tomada de 12V da carrinha fica simplesmente sempre ativo. Cobre até 10 aparelhos numa ligação, que é aquilo que os planos de eSIM por pessoa não conseguem fazer. Desde 18 EUR por três dias, e o valor diário desce quanto mais tempo ficar consigo.
A ressalva honesta é a única coisa que aluguer nenhum resolve: nesta costa está a comprar uma ferramenta melhor para o sinal que existe, e não mais sinal. Em todo o resto de Portugal essa distinção deixa de importar, e vale a pena lembrar que a Costa Vicentina é a exceção numa rede que, de resto, é muito boa.
Se a rota continuar para norte pela costa ou para o interior, o guia de internet para road trips trata das portagens e da navegação, e os mapas de cobertura têm o resto do país, região a região.